...
top of page

Passado a Limpo




Você sabia que o Dia da Empregada Doméstica é uma alusão à data de falecimento de Santa Zita, em 27 de abril de 1272?


A padroeira das serventes e empregadas domésticas era de família pobre e foi enviada por seus pais - aos 12 anos de idade - para trabalhar na casa da família (abastada) Fatinelli, onde permaneceu trabalhando até a sua morte, aos 48 anos (conheça mais sobre a história dela aqui).


Mas para continuar o nosso papo de hoje - sobre domésticas - convido você a escutar essa música, que vai dar aquele clima para a nossa conversa.


--- Pausa para a música iniciar ---


Tenho certeza de que você conhece bem a história do nosso país - muito semelhante à dos demais países do continente americano - desde a sua “descoberta” (traduzindo: invasão, sequestro, latrocínio e exploração), até os dias atuais.


Nesses mais de 520 anos de história formal, há infinitos casos de exploração de ser humano sobre ser humano, principalmente quando o tema é TRABALHO: da sociedade escravagista à sociedade de mercado.


A nossa história sobre geração de riquezas já começou com a exploração mais brutal e cruel que se pode imaginar: a caça de gente para produção de mão de obra.


Foram milhares os casos de indígenas que perderam suas terras para os invasores e foram utilizados nas lavouras de cana-de-açúcar.


Considerados arredios e de difícil “domesticação” (o que gerava perdas na produção), o “jeito” foi comprar gente que era caçada em diferentes pontos do continente exatamente oposto à costa brasileira, e trazidos como animais, em navios desumanos, para diversos portos do continente americano.


Embora a maioria dos escravos tenham sido comercializadas no caribe e na américa do sul, os “produtos” mais fortes e saudáveis - e consequentemente mais caros - seguiam para os portos de colônias mais ricas, como as inglesas, francesas e espanholas.


Este artigo de pesquisadores da Miami University e da Northwestern University está escrito em inglês, mas apresenta um estudo contendo os valores cobrados por cada escravo (em dólar à época, e atualizados) e o quanto a escravidão gerou de riquezas para a economia americana (em valores atuais).


Spoiler: São centenas de trilhões de dólares.


Se você quiser saber um pouquinho mais sobre o tráfico de escravos, esse site traz informação de qualidade beeeem resumida.


Mas você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o Dia da Empregada Doméstica, afinal de contas.


Vamos lá...


Continuando um pouco mais sobre a nossa história, o Brasil foi o último país a oeste de Greenwich que aboliu a escravidão. Uma decisão “a fórceps” que custou o próprio fim do Império.


Sim, a família imperial não aboliu a escravidão por bondade. O que ela fez foi retardar ao máximo as pressões sociais (que vinham ocorrendo há décadas), para manter-se no poder.


Por fim, após a publicação da Lei Áurea, o descontentamento dos conservadores (grandes produtores de café) gerou uma articulação com as forças armadas para o golpe, e consequente fim da monarquia no Brasil.


A historiadora Lilia Moritz Schwarcz explica nessa entrevista como a Lei Áurea deixou os “libertos” ao “deus dará”. E como esse “deus dará” se perpetuou nos 130 anos seguintes


“Ok. História é muito bacana, mas quando é que você vai chegar nas empregadas domésticas, Alex?”


Vamos lá, então.


Feche os olhos e pense na cor da pele da maioria das empregadas domésticas do Brasil.


Com o fim da escravidão, o governo brasileiro não deu qualquer tipo de capacitação aos libertos.


Os homens que não conseguiram empregos nas lavouras passaram a se virar de bicos, escambos e subversões pelas cidades que cresciam.


E as mulheres, que possuíam uma capacitação laboral conveniente para a elite social (e capaz de gerar renda, por menor que fosse) se tornaram o sustento da maioria das famílias negras do Brasil... trabalhando como empregadas domésticas.


Trabalho aprendido nas casas grandes e ensinado de mães para filhas.


Favelas e bairros carentes por todo o Brasil se desenvolveram com milhares e milhares destas mesmas histórias, perpetuadas nestes últimos 130 anos com o mesmo descaso daquele governo de 1888, salvo nos últimos anos, com as cotas raciais, por exemplo (sim, eu sou favorável a elas, com ressalvas, da qual falarei em um artigo em breve... prometo).


É lógico que é possível encontrar histórias diferentes, mas esta é a realidade mais comum quando falamos sobre histórias de famílias negras e de descendentes de negros no Brasil (basta ler qualquer pesquisa sobre o assunto).


O sociólogo, advogado, pesquisador e professor universitário Jessé Souza explica bem essa situação em dois de seus livros: “A Elite do Atraso” e “Como o Racismo criou o Brasil”. Super aconselho a leitura deles.


Aliás, se você é daquelas pessoas que sabe que, para entender BEM o presente é preciso conhecer BEM a história, aconselho também a leitura do livro da própria Lilia, “Brasil: uma Biografia”.


Todos os três são um soco no estômago... mas um soco necessário para sairmos dessa nossa letargia.


Letargia que mantém uma desigualdade social gigantesca e, consequentemente, altos índices de criminalidade urbana e, consequentemente, altos custos de vida e, consequentemente, uma impossibilidade de progredir e viver plenamente sem medo em terras brasilis... para todos, inclusive você.


Veja bem, minha intenção com este artigo não é desabonar, ou desqualificar o serviço doméstico, muito menos as pessoas que trabalham com serviço doméstico.


Muito pelo contrário.


O meu ponto é que, em uma sociedade de mercado como a nossa (lembra da máxima da oferta e da procura?), onde a quantidade de pessoas sem qualificação e capacitação laboral é gigantesca, este tipo de trabalho possui um valor irrisório, impossibilitando vidas dignas para as pessoas que vivem dele.


Motivo pelo qual eu tenho PLENA CONVICÇÃO de que não existe outra solução para a nossa sociedade, que não passe por capacitar, capacitar e capacitar.


E quando eu falo em capacitar, eu quero dizer, promover a TODAS as pessoas conhecimento de qualidade, senso crítico e desenvolvimento de todas as capacidades humanas que possuímos (intelectuais, sociais, laborais...).


Afinal, o maior ativo de um país é a sua população (já falei sobre isso aqui e aqui).


E é com um enorme desejo de promover essa ideia de capacitação humana que a Civisporã elabora o seu trabalho, seja na publicação de conhecimento nos seus canais, seja produzindo camisetas para nós, seres humanos, e nossos amigos peludos.


Sempre com o propósito de sensibilizar a população de que a sociedade atual é o resultado daquilo que somos no dia a dia, e de que nossas atitudes transformam a sociedade, positiva – ou negativamente.



Alguns dos artigos apresentados aqui no Sermoré da Civisporã, ou nos textos estampados nas suas camisetas, podem parecer um pouco duros, pois repreendem atitudes prejudiciais; outros apresentam um convite a juntar “lé com cré”; outros são motivacionais.


Mas todos eles nos fazem pensar e possuem o mesmo objetivo: lembrar que somos nós que construímos o Brasil e que cabe a nós melhorar a nossa sociedade. Sociedade esta que se iniciou no encontro dos colonizadores portugueses com os nativos indígenas que aqui já viviam.


E é refletindo esse início do nosso país que está estampado o propósito fundamental da CIVISPORÃ:

CIVIS: Sociedade, em Latim.

PORÃ: Boa/m, bonita/o, melhor, em Tupi.

Posts recentes

Ver tudo

Commentaires


bottom of page